
Christus nóbrega
(Catálogo Dragão Floresta Abundante: a aventura de Christus Nóbrega na China)
Este projeto constitui-se de uma exposição multimídia de Christus Nóbrega, compreendendo a sua produção artística realizada durante o período em que o artista esteve participando de um programa de residências artísticas do Ministério das Relações Exteriores, em parceria com a Central Academy of Fine Arts – CAFA, em Pequim, entre outubro e dezembro de 2015. Foi a primeira experiência do gênero realizada com a participação de um artista brasileiro na China.
O título da exposição associa o nome do artista, em chinês, à ideia de uma narrativa de aventura que caracteriza-se por ser uma história onde um personagem vive situações extraordinárias. Os logogramas 龍沛森 que representam o seu nome, pronunciado como Lóng Pèi Sēn. O primeiro logograma significa dragão, o segundo abundante e o terceiro floresta. Em uma tradução livre significa ‘aquele que faz coisas bem-aventuradas e grandiosas’.
A curadora chinesa Tifany Beres, juntamente com a equipe cultural do Itamaraty, selecionou o artista para participar do programa de residências tendo em vista a percepção de que o seu conjunto de trabalhos, muitos deles realizados com plotter de recorte e corte laser – que guardam semelhanças com a técnica de chinese paper cutting (recorte de papel chinês) - apresentava melhores possibilidades de estabelecimento de diálogos poéticos e interculturais com a China.
Devido aos vários atravessamentos que ocorreram durante o processo imersivo do artista em território estrangeiro, idealizou-se uma mostra de caráter multimodal, composta por uma mostra de vídeos e ações educativas, com o objetivo de proporcionar aos visitantes uma experiência próxima ao tipo de vivência pela qual passou Nóbrega, repleta de acontecimentos que o aproximaram de aspectos presentes na cultura chinesa, e que resultaram em poéticas visuais compostas por narrativas de contato e dissonância com as situações vividas.
As obras que pertencem à mostra consistem de oito séries que transitam entre as linguagens de fotografia, performance e desenhos feitos com GPS, que pretende-se que sejam associadas a uma pequena mostra de vídeos e algumas ações de cunho educativo, compondo o conjunto expositivo. As séries foram assim intituladas:
A ideia que norteia o conceito curatorial está vinculada ao tipo de experiência que surge quando o artista se encontra em estado de trânsito, condicionada, de alguma maneira, às circunstâncias postas pela residência e que são somadas ao background que o artista carrega, estabelecendo ao final do processo, um universo visual pleno de camadas discursivas.
A construção de sua produção artística se inicia antes da ida para a China. Algumas fontes literárias e culturais instigaram o artista a refletir poeticamente sobre o país. As referências escolhidas são enigmáticas e, por isso, estimulam a invenção artística. São elas: a enciclopédia chinesa chamada de Empório Celestial de Conhecimentos Benévolos, citada em livro de Jorge Luis Borges, e cuja existência é duvidosa, tornando-se alvo de investigação do artista em bibliotecas de Pequim; o I-Ching, também conhecido como Livro das Mutações, um livro-oráculo, que tem suas origens na antiguidade; os escritos Diário de um louco, de 1918 e A pipa, de 1925, ambos de autoria de Lu Xun, poeta, escritor, editor, tradutor e crítico literário, reconhecido como o mais proeminente escritor chinês do início do século XX, e ainda, publicações diversas sobre caligrafia.
No caso desta exposição, particularmente, que trata da poética artística resultante do encontro do artista com a China, a complexidade discursiva é parte essencial para compor um panorama complexo e vibrante, sobre um país com 1.3 bilhões de habitantes e que é recheado de mitologias para o público ocidental, muito em decorrência do idioma, pouco acessível a outras culturas, mas também em razão da censura aplicada à mídia.
Esta conjuntura hermética, que bloqueia o nosso conhecimento e percepção sobre o que seja a sociedade chinesa, abre, por outro lado, portas para a imaginação do artista, que inventa mundos a partir do que vê, sente, procurando traduzir essa sensação de estranhamento em poética visual possibilitando, para o expectador, a conhecer facetas da sociedade chinesa e de Pequim, em especial. Para que se pudesse constituir um conceito curatorial junto a um desenho expográfico que revelasse a riqueza dessa experiência, foi necessário levar em consideração uma série de argumentos que estiveram presentes durante os dois meses de residência. Estes argumentos giram em torno das seguintes questões: paisagem/cidade; inovação e manutenção; simbologias. E, por fim, a temporalidade que permeia todo o conceito.
A consciência de que o ser estrangeiro estaria constantemente sendo habitado pelo ser brasileiro sobrevoou a visão do artista, influenciando as suas escolhas e impactando a curadoria, como se segue:
1. PAISAGEM/CIDADE: A ideia de aproximação do artista com o território estrangeiro, visando a construção poética para fins da residência, foi formulada em torno da ideia da constituição de um espaço para que ele se torne um lugar. Para isso, há que se resignificar o espaço a m de que ele ganhe presença, corpo e de vazio, para aquele que o vê, torne-se pleno de sentidos. Para isso, Nóbrega propõe dois eixos de pesquisa que norteiam seu trabalho poético e que foram incorporados ao conceito de curadoria e ao plano expográfico, e que foram nomeados como Ver-paisagem e Ser-cidade. No primeiro caso, o artista postou-se ainda distante, em situação de reconhecimento de área, atuando como observador enquanto, na segunda situação, o artista passa a se aproximar, de forma mais ativa, entranhando-se no cotidiano da cidade. Ambos contextos são focos férteis para o se conhecer.
2. INOVAÇÃO/MANUTENÇÃO: A percepção do estado de ser estrangeiro também se deu por meio da constatação de diferenças entre a cultura brasileira e a cultura chinesa e que estão muito vivas nas invenções dos artistas e em seus meios de produção, e que Nóbrega definiu como estando entre o desejo de inovação, típico da sociedade ocidental e a busca pela manutenção da tradição, correntes na cultura oriental.
3. SIMBOLOGIAS: O símbolo é uma forma de apresentação visualmente sintética e de rápida percepção, mas essencialmente complexa, porque carrega uma série de atributos que só se mostram após um entendimento de seus aspectos constituintes. No caso da China, em especial, descortinar esses aspectos demanda muita observação, o que Nóbrega fez durante todo o processo. A simbologia que advém da cor também propicia mais uma camada significativa para que o artista estabeleça pontes entre o ser estrangeiro e o estar chinês: o verde e amarelo vão dando lugar, paulatinamente, à cor vermelha, que toma sentidos distintos daqueles que compõem a memória social e afetiva do artista, à medida que ele passa a conhecer melhor o estatuto do vermelho naquela sociedade.
A curadoria propõe integrar todos esses eixos ao construir espaços que serão distintos uns dos outros, balizados pela noção pela noção do estranhamento e reconhecimento de Christus Nóbrega em território estrangeiro.
A experiência do artista em residência na China é uma ocorrência extraordinária porque, além do ineditismo da ação propriamente dita, como foi apontado na apresentação do projeto, envolve duas outras questões que suscitam interesse, como o trabalho do artista em residência - fenômeno que surgiu mundialmente a partir da década de 1990 e que tomou um impulso formidável dentro do campo artístico, como forma de trabalho que instiga o deslocamento e a troca em rede – e a possibilidade de se estudar a cultura e arte chinesas, cujos meandros e complexidades ainda são desconheci- dos do público brasileiro, que tem acesso apenas a algumas facetas que são trazidas pela comunidade chinesa radicada no Brasil permitindo, somente, o acesso a uma reduzida parcela sobre o que se realiza, pensa-se e produz-se no país mais populoso do mundo.