FICÇÕES RURAIS

Daniel Murgel, Fábio Baroli, Marcone Moreira, Marcos Antony

(residência artística realizada no NACO - Núcleo de Arte do Centro-Oeste)

(texto para catálogo)

HETEROTOPIA: invenção e contravenção na produção dos artistas

Cada fatia de tempo que compõe o período de ocorrência de uma residência, desponta como uma nova fabulação espacial. O imaginário sobre a região e sobre o lugar, possibilita que o artista surja com a sua versão sobre o que será visto e vivido no tempo da partilha.

Essas ficções rurais, operando em Olhos d’Àgua, um pequeno povoado situado no centro do país, em uma localidade pouco conhecida - apesar de ter seu lugar histórica, política e socialmente determinado - abrem fendas no lugar comum descortinando, a partir das produções dos artistas (e de suas próprias, como sujeitos que ocupam esse lugar outro), somas, subtrações, multiplicações e divisões de conhecimentos existentes e novos, reorganizando tempos e espacialidades.

As produções, nesta situação, vão ao encontro de um conceito que se popularizou desde 1984, com a publicação da conferência Des Spaces Autres, de Michel Foucault, que é o de “Heterotopia”, espécie de ‘contra-espaços’, que são lugares reais existentes em toda e qualquer cultura; de um tipo que “têm a curiosa propriedade de estar em relação com todas as outras alocações, mas de um modo tal que suspendem, neutralizam ou invertem o conjunto das relações que se encontram por elas designadas, refletidas, pensadas”*. Foucault continua dizendo que são “(...) lugares de um tipo que estão fora de todos os lugares, mesmo que possamos indicar a sua localização no real. Em razão de serem esse lugares absolutamente diferentes de todos os sítios que eles refletem e a qual se referem, eu os chamo, em contraste às utopias, de heterotopias.”*

A imagem síntese da heterotopia, o navio, encontra paralelo com a imagem do artista em residência, que sai de seu lugar de origem rumo a outro, conhecido ou não, como Olhos d’Água, que se encontra situado historicamente, mas está deslocado na ordem vigente do art establishment, por exemplo. O navio é, para Foucault, heterotopia por excelência: “(...) um pedaço flutuante de espaço, um lugar sem lugar, que vive por ele mesmo, que é sobre si fechado e ao mesmo tempo entregue ao infinito do mar e que, de porto em porto, de costado em costado, de bordel em bordel, vai até as colônias buscar o que elas têm de mais precioso em seus jardins...”*

A residência de arte, principalmente em zona rural, ocupa um espaço “fora de foco” para o artista trans-migrantes.

Algumas questões possíveis para se abordar as heterotopias ficaram mais evidentes, como o princípio de crise e desvio, das heterocronias e o da ilusão e compensação. Cada um desses preceitos auxilia a leitura e interpretação das peças que foram sendo compostas e contrapostas ao longo do tempo, transformando o espaço-atelier do NACO em uma grande embarcação, reconfigurada à medida que novos acontecimentos (o aportar e o zarpar) surgiam e eram absorvidos e devolvidos pelos quatro participantes ao espaço da partilha.

Estão aí, a seguir, para a recepção e conhecimento do leitor, imagens realizadas em diversos momentos do processo; um recorte dos tempos e espaços em transformação. Permanece a ideia de que o trabalho em residência é um dos caminhos possíveis para que a ponderação encontre sentido, mesmo (e até por quê) em meio a zigue-zagues e interferências no percurso, que põe feitos, tripulantes e navegantes em alerta constante. Boa viagem!

julho/2016.

*Extraído do texto Des Spaces Autres, conferência apresentada no Cercle d’études architecturales em março de 1967 e publicado com o título de Of Other Spaces: Utopias and Heteropias pela October, n. 5, out./1984, p. 46-49.