
RENATO RUSSO MANFREDINI JR.
(texto para catálogo)
A escrita contínua do verso
Um conjunto que revitaliza a memória. Uma exposição que desvela o a prática musical pelo uso da escrita: os manuscritos estão por toda parte e é por esse veio que correm as palavras que se transformam em sons e versos, por letras conhecidas e daquelas que são inéditas ao público.
Como abordar o mito, trazê-lo ao plano terreno e envolvê-lo na tra-ma das possibilidades que fogem à banalização? Esta exposição traz objetos que são registros de premiações, reportagens em jornais, ins- trumentos musicais: coisas que aquietam as mentes que procuram por indícios da presença que estão na memória dos objetos de natureza midiática. Afinal, estamos lidando com a persona Renato Russo. Entre- tanto, não foi a avidez pela coisificação que motivou este projeto. A exposição não estende um fio linear que dispõe ordenamente dados de uma ponta a outra. Considera-se que o processo criativo - momento de início e desenvolvimento de ideias - está em todo o lugar; não pode estar circunscrito nos limites do suporte, atado a uma ou a outra ver- tente, refém de um só parâmetro de leitura.
Estes lugares, no universo de Renato, desde cedo estiveram localizados nos livros que versam sobre sexualidade, espiritualidade, gêneros musicais, filosofia, astrologia; nos discos, que mostram preferências pelo punk, rock, ópera, canções folk italianas; e nos filmes que abarcam estéticas que vão do gênero terror - produzidos pela Hammer Films - a Almodóvar. Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), escritor suíço que compõe o coro de vozes junto com o pintor francês Henri Rousseau (1844-1910) o matemático, filósofo e sociólogo britânico Bertrand Russell (1872- 1970), servem de catalisadores para a criação do heterônimo de Rena- to Russo & Eric Russell - personagem condutora de sua vontade de expressão musical e integrante da banda imaginária intitulada 42nd Street Band - surgido no ápice da adolescência de um garoto inquieto, leitor e ouvinte voraz de livros e discos, e, ainda, Renato Manfredini Júnior.
A liberdade de experimentar foi exercitada a partir daí, na década de 70, especificamente em 1975; uma mescla de ideias sem compromisso com acabamento ou conclusão. Nesse ponto, detectamos o início de uma produção de escritos que beiram a obsessão e onde estão reunidas séries de trilhas musicais, árvores genealógicas dos componentes da banda, programações para turnês e entrevistas. Mas a escrita procura mais espaço e sai em busca de outras histó- rias que podem ser ficção ou parte de um fato acontecido: frases e sonetos espalham-se pelas folhas dos cadernos de escola, em suas contracapas, pelos diários, em folhas avulsas, em forma de bilhetes, cartas e cartões.
Há de se aceitar o desconexo como parte integrante deste material que, eventualmente, vem acompanhado de uma pista: uma data, um "under libra", um lembrete de produção para um show; chega a ser críptico. Como no caso das inúmeras versões para uma mesma música. Exemplos são "Metal contra as nuvens" ) de 1991, ou em "Há tempos" , de 1989 . Os manuscritos foram o embrião na geração de um vasto repertório musical onde estão registradas não só aquelas influências já citadas, como também a troca de ideias com os amigos, desde os parceiros do Aborto Elétrico - Fê Lemos e Flávio Lemos -, os da Legião Urbana em sua existência - Dado Villa-Lobos, Marcelo Bonfá, Paraná, Paulo Paulista e Renato Rocha - e tantos outros -, contemporâneos a sua estada em Brasília e no Rio de Janeiro, músicos de outras bandas, de outras vertentes musicais, além de dançarinos, atores, cineastas e produtores que participaram ativamente de movimentos culturais.
Em um mundo onde um pedaço de chitão precisa tornar-se seda, onde a perfumaria toma o lugar do essencial, os manuscritos e desenhos, parte de galerias de personagens ou rabiscos casuais nas folhas de suportes banais e cotidianos como os cadernos, são a matéria-prima do que se tornou público, versões sobre o mundo em expansão. Depositam histórias que falam sobre ansiedades adolescentes, conflitos existenciais, desabafos sobre a falta de ética nas relações sociais ou mensagens que revelam uma busca incessante de amor, como quando escreve "Meu coração espera riquezas maiores. Meu coração está tenso, irritado. Esquivo e cansado. Está rude, tosco, pobre. Miserável."
As oscilações da vida e suas diversidades foram expostas tais como são: parte de um espectro extenso e oscilatório, ora cheio de interrogações, ora pleno de afirmativas e as músicas incorporavam estes sentimentos: as que pareciam proferir ensinamentos, interpretadas como libelo ao levante de causas urgentes envolvendo questões de gênero, conflitos entre classes sociais, caos econômico e desarmamento, e aquelas com grande carga sentimental, mais líricas e até voltadas ao
campo do espiritual. O fio da linha que foi conectando os pontos, os rabiscos, os símbolos e as palavras nos cadernos e nos papéis gerou um processo longo de registro de idéias que não foram arrematadas com um nó que sela o fim da história com o encerramento da vida.
Dentre os manuscritos de Renato há projetos inéditos - em sua maioria esboços de peças de teatros e filmes. Como a peça de teatro, finalizada e datada de 1982, "A Verdadeira Organização do Desespero", que é concebida em formato de tragédia grega, inspirada em Ésquilo; ou a inacabada "A Visita de Mr. Green: Pantomima Cega em Dez Pedaços para Cinco Atrizes". Ainda há o roteiro para o filme, o uThe Film", ambientado em Brasília e que inclui, entre as personagens, Dado, Bonfá e Renato Rocha, e a
ideia de filmar o romance "O Bom Crioulo" , de Adolfo Caminha (1867-1897), escritor naturalista, publicado em 1895, seu último e mais recente projeto.
Para sempre a escrita funciona como núcleo, eixo de expressão e mote para revelação. Como está inscrito em um de seus pedaços de papel de sua coleção tão preciosa: "Ser um escritor se torna eu".