Traço Suspenso: desenhos de Mateus Gandara.

(texto para parede)

Esta exposição apresenta um recorte expressivo da produção de Mateus Gandara, um jovem artista nascido em Goiânia em 1986 e radicado em Brasília, aonde chega para residir aos 10 anos, permanecendo da cidade até o momento de seu falecimento, em janeiro de 2015, aos 28 anos. A mostra procura revelar a potência de uma produção que começa a ser desenvolvida, profissionalmente, em 2003, no momento em que participava de aulas que o preparavam para ingressar na graduação e que prossegue, de maneira incessante, até 2015.

Sua produção é típica de um sujeito curioso, aberto a pesquisas que possibilitassem abarcar diferentes materiais e assuntos, e o recorte curatorial procurou dar vazão a esta faceta. Aqui estão expostos grupos de desenhos originais que compõem os conjuntos sequenciais (HQs) publicados em zines e periódicos independentes, entre elas as revistas Samba, Pimba, Mês e Vudu.

Também estão expostos estudos para retratos, criação de personagens, de cenas e de modelos vivos, bem como os cadernos que são lugares fundamentais para o seu exercício poético. Os cadernos são projetos que serviam como diários que em imagens e textos coabitam. Mesmo tendo nos deixado tão jovem, Gandara manteve uma produção de desenhos prolífica e diversificada, em grande parte realizada em cadernos; suporte de praxe para o desenhista.

Seu interesse profundo pela figura humana o conduz a realizar exercícios em que o ser humano surge como parte dos mais variados contextos: tanto como fragmentos de relatos visuais e textuais presentes em situações cotidianas, como parte de uma conjuntura em que está sempre colocada em xeque, ora condicionada ora à deriva. A condição existencial humana é uma constante como tema, mas não é invariável como forma, pois a figura é um corpo que vai recendo tratamentos variados ao longo do caminho. Gandara vai, gradativamente - provavelmente em razão de sua condição de saúde - percebendo-se como o humano de sua produção e encontra o ser Mateus, que se torna personagem de suas ficções, elaboradas e reelaboradas para dar conta de um novo estado de viver, contrário a suposta ordem natural das cosias. E, em algum caderno, se pergunta: <Quantos anos para que consolide um trauma? Um medo?>

A experiência de ter sido lançado, jovem, em uma situação de instabilidade vital comprova, efetivamente que, sobre a vida pouco sabemos, e isso o emancipa para mergulhar em direção a um universo de estrelas, galáxias e planetas desconhecidos, à moda de um de seus personagens, esboçados em um dos cadernos, o Dark Matter, um híbrido humano. O ato de desenhar passa a ser um ato de enfrentar monstros, formas inventadas em busca de novos sentidos para reconhecer-se. O paradoxo fica posto, pois são nesse momentos, em que a vida fica por um fio, que a arte parece encontrar sentido e lugar.