Carta Para Helena
(texto para parede)
Brasília, 23.08.2023.
Cara Helena,
Recebi ontem a sua carta e fiquei muito feliz em saber que a sua viagem rendeu frutos, mesmo diante de uma situação que deve ter sido incômoda e dolorosa, que foi a de viajar para o museu do campo de concentração. Mas entendi que, em Budzyn, de onde vêm seus familiares, a procura por conexão com a sua ancestralidade foi, como você disse: <uma entrada no paraíso>. Imagino que deva ter sido uma viagem de descobertas, como percebi no seu lindo livro do Chão para o Chão. Achei fabulosa a ideia de reelaborar o visto e sentido por meio da escrita e da reelaboração de imagens fotográficas.
Já li e reli o livro e me encantei muito! Me ponho a pensar sobre qual deva ter sido o processo para a sua escrita. Achei as imagens instigantes e crípticas, e fui me aproximando mais delas a medida em que o fui relendo. Notei que houve uma transformação das fotografias originais com inserção de elementos, recortes e o uso de espelhamentos, que provocaram a transmutação das imagens, fazendo surgir uma nova coisa, como no caso do Personagem, que você nomeou como o seu companheiro de viagem: uma animação do inanimado.
Também fiquei feliz em saber que tudo isso te levou a ter mais prazer em retornar ao ateliê, depois de três anos de ausência. Olhando o conjunto das imagens, percebi que a Helena gravadora ainda está atuante: as linhas, que são uma marca em teu trabalho, estão sempre presentes e, nesta série, elas aparecem como desenhos que formam pequenas cartografias; sinais das passagens do chão para os quais você olhou e registrou com a sua câmera fotográfica.
Fico pensando em como deve ter sido importante poder ressignificar essa experiência! Com esse movimento você se aproximou de alguns pensadores, como Didi-Huberman, que também empreendeu essa viagem, transformando a sua vivência em escrita. No seu caso você olhou para o chão a procura de alguma resposta, no caso de Huberman, as cascas das bétulas foram o objeto de seu interesse. Superar o vazio do não pertencimento surge forte nas tuas palavras e é encantador como você supera essa angústia por meio da arte.
Me despeço, muito contente por ti e esperando que continuemos essa conversa tão rica.
Beijos da Renata.
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