VOCÊ FICA MELHOR SEM CABEÇA

DANI SOTER E CÉCILE DE BEYSSAC

(texto para parede)

Encontros de verdade são raros.

O encontro de Dani Soter e Cécile de Beyssac é o que podemos denominar de “encontro epidérmico”. Uma troca impulsionada pelo desejo comum de elaborar uma produção artística relacionada à situações vitais, filiadas à esfera do íntimo, onde a pele figura como um elemento nuclear dessa fabulação conjunta.

A pele é orgão de revestimento que nos protege. Ponto de contato com o exterior, possibilita que nos tornemos visíveis para o outro. É meio aparentemente mudo, mas pleno de lugares prontos para o exercício daensibilização e da percepção do que vem de fora. A cada intervenção, há uma mudança de estado do corpo que, afetado, solicita a instauração de um outro corpo. O corpo é uma seara de afetos.

Os estados são provisórios, mas constantes. E deixam marcas. Vão provocando reações, conjugadas à formação de memórias, que são agregadas ao plano invisível, território do subjetivo. Tem-se a impressão de que as marcas são fixas e imóveis mas, na verdade, só adormecem, para serem reavivadas à presença de um novo encontro com algo que ecoe para essa marca, resignificando a sua existência para o seu sujeito.

É nessa altura de minhas ponderações que eu situo os trabalhos das duas artistas nesta exposição. As invenções sobre papel e os objetos que elas propõem, emergem de um desses momentos em que houve uma alteraçãode estado, fazendo surgir o desejo de uma repotencialização das marcas impressas, que estão, para as duas artistas, estreitamente vinculadas à passagem do tempo e à qualidade da existência de ambas em seus percursos de vida.

O que se avista ao olhar o grupo de trabalhos são paisagens moduladas em espaços territoriais, onde a pele, que reveste os volumes dessa topografia, está sujeita às intempéries da vida. Os traços, os respingos, as manchas, os decalques, os amassados e as sobreposições são como inscrições do tempo, das ações e das situações sobre o corpo, que podem tanto enfraquecê-lo cmo torná-lo mais forte. Lembrança da impermanência a que estamos todos sujeitos.  É tanto a alusão à pele fina e frágil, bege ou rosada, lugar do desejo de comunicar com corpo, de Dani Soter, como o inventário de uma anatomia tansitória, sujeita a acidentes e desgastes que são incorporados pelo fluxo vital, de Cécile de Beyssac.

Aqui o trabalho de arte aponta para a afirmação de uma nova topografia, impulsionada pela inquietação e vontade de entendimento do novo estado que surge do acúmulo vivido.

 

Maio de 2015

Dani Soter.

Isso foi antes.

Papel de seda, tinta acrílica, grafite,

122x98 cm.

2015.