(texto de livro)

Poética prosaico política procurando povoar o pensamento pop urbano.

 

Com arte e com engano,

vive-se a metade do ano;

com engano e com arte,

vive-se a outra metade.

Provérbio popular.

 

Os artistas que trabalham com ações na rua são surpreendentes porque tomam de ataque o passante desavisado. Curioso, o passante suspende o passo e, em uma rápida fração de tempo, entra em contato, com o inusitado na paisagem. O que ele vê e lê surge, como mensagem pública e compartilhada, ao mesmo tempo em que se torna argumento para a percepção individual. Parece um despudor: como pode estar ali para mim e para todos a um só tempo?

O Coletivo Transverso faz isso: interrompe o percurso pessoal de pensamentos alvoroçados do cotidiano (as contas! o chefe! a dor!) e provoca um tropeço no meio fio, estancando por um instante o moto-contínuo que anestesia mentes e corações. O grupo oferece antídoto para a dor (“Em caso de dor, dance”), para o esquecimento (“Nunca é tarde se não se sabe que dia é hoje”), para a falta de amor (“Sou sua pessoa amada por três dias”). E nos constrange ao nos lembrar que existimos em comunidade (“A vida é um emaranhado de nós”), quando todos os dias insistimos em esquecer (“Não fosse o amanhã que dia agitado hoje seria”).

Em meio às limitações construtivas e de comunicação que a cidade impõe, o Coletivo produz pequenas subversões na ordem do dia.  Subversões essas semelhantes à desestabilização provocada pela sensação de se apaixonar: um estado de emergência que nos tira da pretensa economia que demanda obediência a um fluxo ininterrupto e contínuo de pensamentos carregados de pragmatismos, generalizações e alienações. O grupo nos convoca à ação, à moda das instruções conceituais: “Encontre o seu lugar.  Particularize. Faça parte. Deixe cicatrizes contemporâneas. Pinturas rupestres. Tatuagens efêmeras. Seja solidário. Transcreva, transmute. Abra espaço para que as borboletas possam voar sobre o concreto.”[1]

Enredados pela palavra e pelo desenho gráfico desde o início de seu percurso, em 2011, poeta, artista visual e atriz partiram para o espaço aberto para provocar encontros nos vãos da matriz urbana fazendo amplo uso do campo semântico aonde coexistem erros de grafia, embaralhamento de sentidos e das relações gráfico-fonéticas, tornando a poesia, verso livre. Os poemas, os desenhos feitos com máscaras em estêncil, os lambe-lambe e os objetos instalados, são proposições públicas na paisagem, poesia, verso livre.

Por trás desses encontros poéticos e estéticos, que surgem fortuitamente para o passante, há uma série de elaborações gestadas pelo grupo e por colaboradores, evidenciando questões que compõem um espectro generoso de interesses humanos, onde há lugar tanto para minúcias existenciais e mundanas, como para assuntos que consomem a agenda politica e econômica.

Os atos do Coletivo Transverso impulsionam os habitantes da cidade a se transformarem em amantes do espaço e do tempo em que vivem, tal como procuraram fazer os Situacionistas que, entre as décadas de 1950 e 1970, arquitetavam situações levados pelo desejo de reinventar cidades e alimentar paixões. O amor, parafraseando Slavoj Zizek, “está emergindo como algo perigoso e, para ser mais preciso, subversivo”.[2]

É nessa disposição de afetos, manifestados como uma forma de busca do amor livre, que a subversão acontece, deixando rastros em diferentes urbanidades (“Quantas cidades levo dentro de mim?”, “Cuantas ciudades hay em mi”?) sem deixar de lembrar ao outro que, ao mesmo tempo que a inserção existe, o vestígio ali deixado é efêmero, como é a passada do transeunte e a própria vida: “Somos todos estrangeiros”, “O poema muda o sentido do caminho”, “Que o medo de partir não me impeça de mudar”. A cidade tem suas próprias formas de organização e a intervenção urbana atua, reivindicando um lugar para produzir um recorte na lógica das cidades, onde tradições e contradições são evidenciadas, não somente como apontamentos voltados para o corpo social, como também para o que toca o universo íntimo de cada cidadão.

Em sua primeira intervenção em Brasília, em novembro de 2011, afeto e política já se fizeram presentes para o grupo quando se propôs colocar em xeque a opressão a que o indivíduo e seu corpo estão submetidos incessantemente, inserindo frases e desenhos em bancos, muros e pontos de ônibus (“Cada um nasce com um cu, cuide bem do seu, do meu cuido eu”; “Estado, não se meta com meu útero”, “Meus poemas podem mentir, minha buceta não”).[3] 

E as ações urbanas continuaram surgindo e se relacionando com o espaço de muitas maneiras: soltas, sem correlação temática com o espaço, encontrando identificação com todos e com cada um (“O afeto te afeta?” “A parede que te impede é tua também”, “O Sonho é o sumo do que me sobra do mundo”) e como inserções site specific, inventadas para dialogar com os inúmeros e diversificados lugares em que se introduzem: escolas, escadas, marquises, praças, parques, centros comunitários e culturais etc. Na série de intervenções realizadas entre 2014 e 2015, em Brasília, e em suas Regiões Administrativas[4] está a Sebastião, que foi executada na Olaria de São Sebastião, DF, dispondo sobre tijolos, frases com terra, aludindo à situação histórica do lugar (“Quantos tijolos quantos tião”; “Quantos tião para cada cidade”) ou a Posto de Saúde Provisório, que deu nome a uma placa que sinalizava a horta de ervas com propriedades medicinais instalada no terreno em frente ao espaço destinado ao posto de saúde (“cuida do que te cura”).

Como as intervenções são passageiras, podendo durar até a primeira chuva ou até que alguém as tire do lugar, ou por cima interfira, formou-se, desde o início a consciência de que a circulação de ideias seria a sua substância mais admirável: é mesmo o instante que se materializa na memória como lembrança. Formar essa rede de compartilhamento e de invenção perenes é parte integrante do conjunto de ações do Coletivo, que faz reverberar a poesia urbana e a técnica do estêncil em oficinas que oferece para diferentes comunidades.

O Coletivo Transverso aposta na poesia e na imagem como dispositivos de comunicação com o outro que é, concomitantemente, ausente, mas parte de sua alteridade criadora. As rotas estão traçadas para esse outro, leitor/vedor, colocado em situação de partícipe dessa ação poética e de intervenção urbana, e capaz de contribuir para a partilha social e estética. A ação se desdobra como um convite para a aproximação, para um apaixonar-se por si próprio e pelas causas que são partilhadas no coletivo e quem sabe, a partir do insight do encontro, subverter-se.

[1] Texto de inauguração do grupo. Janeiro de 2011.

[2] Slavoj Žižek: Love as a political category 16/05/2013.

[3] I Encontro Transarte. A Arte como reflexão das problemáticas dos corpos. Universidade de Brasília. Nov, 2011.

[4] Grupo de intervenções patrocinada pela Fundação de Apoio à Cultura – FAC.

 

 


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