paulo campos andrade

(texto para livreto)

 Os dois tempos da imagem

É bem provável que se formos escolher alguma frase de uso comum para caracterizar a atual conjuntura mundial, nos deparemos com a seguinte afirmação: “vivemos em um mundo de imagens”. Isso soa, para alguns, como uma avalanche que é preciso ser contida; para muitos, como material para edição e, para outros como fontes de referência a serem incorporadas como vocábulos ao léxico corrente. Afinal, as imagens são presenças marcantes e atuam como textos repletos de parcelas de mundo que, independente do sentido que assumam para o outro, tem a comunicação como mote.

Paulo Andrade, em meados da década de 1970, já percebia o valor dessa sentença de uso comum. Inserido no programa de uma geração que ansiava por comunicação e circulação de ideias, potencializado pela vivência em um momento de alta tensão política, Andrade inicia um percurso informado pelas mudanças na tradição artística que, influenciada pela cultura de massa, pela Arte Pop, pelo Novo Realismo Francês e pelo Conceitualismo, subverteram mecanismos de produção e apresentação de imagens. Meios e técnicas oriundos do design gráfico e temas saídos da mídia e dos fatos do cotidiano formam a matéria-prima do novo trabalho e contribuem para reforçar a situação de emergência da arte em subverter a ordem instituída dos sistemas vigentes e dos discursos hegemônicos.

A Arte Postal é a vertente que Andrade escolhe como linguagem, na década de 1980, para colocar os contrapontos que via na política e em Brasília, para onde havia recém mudado. Nos cartões-postais, Andrade tinha espaço para fazer circular o desejo do artista em informar e protestar, ao mesmo tempo em que possibilitava o exercício de articulação de meios: recortar, colar, montar, sobrepor, xerocar. Índios, Xavantes, Xingu, Antropologia e os monumentos da Capital eram temas correntes e revolucionavam a cena política, extrapolando os limites da capital, afinal não era todo o dia que um índio reivindicava espaço. A vida era mais dinâmica, complexa e menos perfeita do que a realidade impressa nos postais vendidos aos montes nas papelarias e bancas de revista. E, nas mãos de Andrade, os cartões passaram de objetos irreais de vitrine a veículo de meio e mensagem.

Os cartões-postais, mais conhecidos por seu papel de veículos de propaganda turística, apresentavam um acervo heterogêneo de imagens do Brasil. E, neste universo, surgiam algumas imagens de rara beleza como as fotografias de Wolfgang Jesco von Puttkamer, realizadas durante as suas estadas nas aldeias indígenas xinguanas, na década de 1960. A busca de Puttkamer era a de transcender uma documentação de registro para alcançar o atávico da cultura indígena: os seus primórdios antes do toque civilizatório.

Fascinado por essas imagens, Andrade inicia, em 1981, uma série de colagens sobre cartões-postais que passou a vender em distintos pontos da cidade, como bares e teatros. O interesse pelos postais foi muito grande, estimulando o artista a produzir novas colagens sobre papel vergé colorido, com aplicação de lápis de cor e ampliações realizadas em xerox, que formavam subséries que foram, também, vendidas pela cidade. E, como a vocação da arte postal é ser veículo de disseminação, os trabalhos de Andrade chegam ao Núcleo de Arte Postal da XVI Bienal de Arte de São Paulo que, após a exposição dessas séries, continua dando prosseguimento ao trabalho, que ganha novas edições a partir de 1983.

Em 1984, os trabalhos tomam nova forma e passam a ser realizados em serigrafia, feitas com tinta nanquim sobre filme gráfico, onde as imagens de uma Brasília oficial, que figurava nos cartões postais, eram usadas como pano de fundo para imagens em grande escala de indígenas do Xingu. Foram feitas 12 gravuras originais e 80 exemplares de cada uma. Novamente, a vocação para a circulação dos postais foi consumada e são apresentados na Funarte e no Museu da Imagem e do Som, no Rio de Janeiro. Tiragem esgotada, os postais-colagem de Andrade se tornaram peça de colecionador e, hoje, constituem parte da memória iconográfica do país.

Será a vida um eterno retornar ao mesmo ponto de partida? E, na chegada, o que retorna é mais do mesmo?

Sabemos que a noção de tempo é balizada pelo estar do sujeito no mundo. Cada ocorrência ocupa seu espaço no conjunto da história e deixa lá a sua marca. Às vezes indelével, outras vezes, nem tanto. E o artista, como ser que reflete sobre as condições do tempo, elabora e reelabora, plástica e visualmente, o que a vida apresenta como material para sua poética.

Em 2014, Andrade resolve retomar o conceito presente nos postais e inicia uma nova série de trabalhos, em um procedimento comum, adotado pelos artistas, que é o de resgatar ideias que estiveram presentes em algum momento da sua trajetória e que, novamente, passam a fazer sentido. Nesse movimento de retomada, algo surge de diferente, atualizando a práxis e deixando à mostra transformações históricas.

Em O Eterno Retorno, que dá nome a nova série, Andrade responde, a sua maneira, ao que Nietzsche apresenta como questão, em Assim Falou Zaratustra: as ocorrências no tempo não são infinitas, mas se repetem, com diferenças. Assim é com os temas sobre os quais Andrade se debruça e relaciona: a questão indígena no Brasil e o crescimento urbano, tendo Brasília como foco.

Na nova produção, o artista revê os conceitos a luz dos acontecimentos e os seus procedimentos técnicos, que aliam técnicas atuais à tradicionais, incorporando, no processo, novos “parceiros” para concepção da montagem. As gravuras agora são impressas digitalmente, com papéis que resistem melhor à passagem do tempo, e as imagens, que são combinações de fotografias de autoria anônima, encontradas na internet e outras, cedidas por amigos fotógrafos com larga trajetória como fotojorna-listas. Sobre estas imagens, Andrade interfere, usando aquarela e tinta acrílica que, transforma o original em novo trabalho, com alto teor pictórico. Na nova série, persistem os índios, que estão lá, resistindo à não-representação, inseridos em um contexto urbano caótico, distante do ideário modernista que lhe deu origem.

Afinal, o que se mantém, no retorno, é o céu.