eneida sanches

Residência/exposição

(texto impresso para distribuição)

A Catira / O Catira 

ou

A visualidade do som na troca do gênero transformado pela potência (e pelo rompimento) que é causado pelo encontro da artista com (um)a tradição em sua inserção no agora do mundo.

Estes desenhos com cobre e chumbo de Eneida Sanches, e o vídeo que aqui estão, foram realizados durante a residência de maior duração ocorrida no Núcleo de Arte do Centro-Oeste – NACO, até agora: oito semanas. E foi a primeira em que um artista reside lá, solo. O que resultaria desse encontro a ser vivido na pequena Olhos d’Água, era uma incógnita para a artista, cujo percurso se desenrolaria a partir de seu ritmo próprio (idiorritmia), de suas questões e leituras in progress, e do modo como se daria a sua aproximação com o lugar.

A trajetória da artista durante este período foi sendo constituída aos poucos, com cuidado e atenção, a fim de que as impressões oferecidas cotidianamente pela cidade e seus habitantes pudessem se tornar matéria dos trabalhos, integradas a um processo investigativo em torno de questionamentos que envolvem a noção de alteridade, tributária de James Clifford, e que compreendem outras noções adjacentes como a de “paisagem de noção”, emprestada de Vernon Reid. Buscas da artista por atualização de discursos e representações.

Em um determinado momento do percurso imersivo, surge o encontro com a Catira, dança ritmada e associada às folias do Divino Espírito Santo, que é o fenômeno que dispara o gatilho em direção à produção dos desenhos que vem a seguir. Procede-se a uma costura poética que reelabora a tradição ao envergar, sob perspectivas inusitadas, os atributos costumeiros da representação, possibilitando que a tradição se conecte com uma pluralidade impensada de interpretações.

A percepção deste fenômeno com os olhos de quem não o conhece, e que dele se aproxima pela primeira vez, investindo desejos e energias para a tradução do acontecimentos, permite a produção de um novo campo de forças geradoras de potência: a Catira explode e estilhaça, deixando aparentes alvos que poderiam nem vir a ser não fosse o olhar do artista. Efeito paralaxe. Surge a mulher, a violência, a ampulheta revirada, a história, o poder e o tiro.

Ca-atira! 


Renata Azambuja / nov. 2016.


Eneida Sanches é uma artista, atualmente, radicada em São Paulo. Desenhista e gravurista, debruça-se há anos sobre a simbologia que cerca a mitologia afro-brasileira, investigando-a no que tange o discurso etnográfico contemporâneo.

Esta residência foi realizada pelo Instituto Sacatar, em Itaparica, em parceria com o Núcleo de Arte do Centro-Oeste como resultado do Edital do Projeto Olhares Brasileiros, Programa Rede Nacional Artes Visuais 12a edição. A presente exposição foi realizada em parceria do NACO com a Galeria deCurators.