Convergir não é igualar: visões singulares em torno do espaço.
Sobre linhas, membranas e fronteiras
Fotografias de Cléo Alves Pinto, José Roberto Bassul e Michelle Bastos.
(texto de parede)
Quanto maiores e mais complexas as relações de que reconhecemos a inevitável interdependência e correspondência, tanto maior o prazer que tal reconhecimento nos desperta.
Mario Pedrosa, 1951.
Podemos dizer que esta é uma exposição configurada como um “lugar em comum”. Ao deitar nossos olhares sobre essas três séries fotográficas, percebemos pontos de convergência que despontam em meio às singularidades poéticas que cada fotografia encarna. Encontrar pontos de confluência tão claros entre as produções, como os que aqui presenciamos, é algo digno de nota, ainda mais por terem surgido como resultado de um processo de seleção de portfólios realizada por um grupo diversificado de fotógrafos, o que pode denotar tanto um sintoma de época no âmbito das Artes Visuais ou uma interessante coincidência. Ou ambos.
Entretanto, convergir não significa igualar, porque isso levaria a um campo neutro e, sim, encaminhar-se para um lugar em que, a partir de um ponto de encontro, irradiam-se possibilidades associativas e interpretativas para a imagem, levando-nos a refletir sobre sua heterogeneidade discursiva.
Nessas séries de fotografias em exposição, há uma investigação poética em torno espaço aonde os fotógrafos, tomando partidos conceituais e estéticos próprios, interpretam a grande área que o compreende por meio de perspectivas que lidam com o arquivo, com a etnografia, com a arquitetura e com aspectos formais que compõem o objeto/contexto a que se dirige o olhar.
Como nossos três fotógrafos reagem a essa condição de se encontrarem imersos na vastidão espacial que tudo abrange, plena de variabilidades, mas conectados a um mundo em que se pretende estar tão próximo do palpável e do aparentemente crível?
Ao por em dúvida a pretensa solidez do mundo, o fotógrafo aponta para o imponderável e inventa lugares possíveis.
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O que o morar guarda? Na extensa série de fotografias de Cléo Alves Pinto, composta por 509 fotografias das fachadas frontais das unidades habitacionais das quadras 700, da Asa Sul, indícios dos modos de vida emanam dos objetos (habitantes?) e de sua disposição espacial, mostrando-se, em menor ou maior medida, ao olhar. De maneira silenciosa, a lente da câmera introduz seu olhar para o interior das casas, aproximando a distância do íntimo desconhecido, entrando no lugar em que o habitado está ausente e nos dá a ver só o que o Outro permite. Do conjunto de imagens, surgem as classificações propostas por Cléo, arranjos determinados a partir das gradações em torno do que se esconde e do que se deixa ver. Foto-objetos de/para o arquivo.
Em José Roberto Bassul, a imagem também faz fronteira com o espaço, mas não como membrana, que permeia a esfera do íntimo e do público, como faz Cléo, mas encarada como meio para desconstrução e reflexão sobre os aspectos materiais comuns à vida cotidiana e urbana. Na esteira dos procedimentos característicos da fotografia moderna, Bassul capta diferentes tapumes – o seu objeto-foco – destacando-os de seu estado funcional e efêmero e concedendo-lhe um novo lugar como imagem. Ao estabelecer associações dos diferentes tapumes com outros objetos e mantendo um mesmo formato, garantindo unidade à série, o fotógrafo inventa uma gramática própria, em sintonia com as estratégias trans-territorializadas da linguagem fotográfica.
Há também o olhar que o fotógrafo repousa sobre o que é habitado, mas que está à margem, distante dos grandes centros urbanos, tornando-se, pela investigação artística, potência cultural e estética. À maneira de uma antropóloga da imagem, Michelle Bastos inicia uma pesquisa que entrelaça visualidade e sociedade. Adotando uma perspectiva semelhante a dos artistas viajantes, a fotógrafa transita entre sete municípios nordestinos, situados no Piauí e no Maranhão. Em cada uma das cidades visitadas, são traçadas tipologias que correlacionam as pinturas das paredes externas das casas com o temperamento de seus moradores. Surge um inventário cromático que instaura o lugar aonde antes, para a fotógrafa, não habitante, havia o espaço. Nas divisões de cor que caracterizam as pinturas das casas e nas marcas que o tempo depositou sobre elas, surgem paisagens, transformando a fotografia em quase pintura.
Renata Azambuja, abril de 2017