júlio césar lopes

(texto para parede de exposição)

Brincando de Kurt Schwitters

Século XVIII. O último dos gabinetes de curiosidades será apresentado hoje. É grande a expectativa. Serão exibidas, a um grupo seleto de pessoas, as maravilhas do mundo vegetal, animal e mineral: unicórnios, fósseis e conchas estão entre as raridades que foram coletadas durante anos de viagens aos redor da terra: uma fatia do macro cosmo. Primeiras décadas do século XX. O homem sai à rua e coleta coisas que encontra em seu caminho: jornais amassados, entradas para uma peça de teatro, um pedaço de sola de sapato, uma carta de baralho. Coloca-as no bolso e as leva para casa onde, ao chegar, percebe, sobre a mesa, uma carta que, de repente, não lhe pertence mais. Junta-se ao bolo de coisas que acabou de trazer da rua. Mais tarde ele irá pensar no que fazer. Quem sabe uma assemblage. Quem sabe uma instalação… amanha é um outro dia. Século XXI. Um outro homem caminha solitário. Encontra alguém que lhe presenteia com um vidro de perfume, uma caia de lápis de cor e um banquinho. Chega ao seu atelier, que é uma casa, um minimuseu. Ele coloca os lápis ali, em outra caixa, juntas aos tubo de tinta usados. O vidro de perfume, após o uso, vai ficar perto de outros vidros vazios. Senta-se no banquinho e espera. Enquanto espera, lembra-se daquele homem, tão peculiar, das primeiras décadas do século passado. O nome dele é Kurt Schwitters. O nome deste homem de hoje é Julio Cesar Lopes. De repente, ele não se sente mais sozinho.

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Brincando de Kurt Schwitters é uma instalação múltipla polissêmica. É o índice de um mundo pessoal e coletivo. Walter Benjamin escreveu um dia: <Toda paixão beira o caótico, mas a paixão do colecionador beira o caos da memória.>